Por que mudar a capital
A mudança da capital da Cidade de Goiás para Goiânia resultou de debates antigos sobre localização, comunicação, saúde pública e desenvolvimento, mas foi viabilizada politicamente após 1930 por Pedro Ludovico Teixeira.
Críticos da antiga capital apontavam relevo, dificuldades de expansão urbana e distância das áreas economicamente dinâmicas. Defensores ressaltavam tradição, patrimônio e custos de uma nova cidade. O debate envolvia argumentos técnicos e disputas entre grupos regionais.
A Revolução de 1930 alterou o poder estadual. Nomeado interventor, Pedro Ludovico associou a nova capital a um projeto de modernização. Construir uma cidade significava criar sede administrativa, abrir mercado de terras, atrair trabalhadores e reorientar caminhos internos.
A comissão de 1932 e a escolha do sítio
O Decreto estadual nº 2.737, de 20 de dezembro de 1932, criou comissão para estudar a adaptação ou escolha de local. Bonfim, Pires do Rio/Ubatã e Campinas foram avaliados com critérios topográficos, hidrológicos e climáticos.
A área próxima a Campinas foi escolhida. O Decreto nº 3.359, de 18 de maio de 1933, definiu terras às margens do córrego Botafogo, envolvendo as fazendas Criméia, Vaca Brava e Botafogo. A proximidade de Campinas fornecia apoio urbano, comércio e mão de obra.
A decisão não encerrou controvérsias. Campanhas contrárias continuaram, e a execução dependia de recursos, desapropriações, contratos e planejamento. A cidade começou como canteiro de obras em um estado com orçamento limitado.
Attilio Corrêa Lima, Armando de Godoy e o desenho urbano
O arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima elaborou o projeto inicial. O plano organizava avenidas convergentes para o centro cívico, com referências ao urbanismo moderno e à monumentalidade administrativa. As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins direcionavam-se à Praça Cívica.
Armando Augusto de Godoy participou de revisões e incorporou princípios de cidade-jardim, especialmente no Setor Sul. Os engenheiros Jerônymo e Abelardo Coimbra Bueno tiveram papel importante na execução das obras. A história da cidade envolve cooperação e conflito entre técnicos, governo e empresas.
O conjunto Art Déco tornou-se marca de Goiânia. Edifícios públicos usaram linhas geométricas, ornamentos estilizados e linguagem de modernidade. Entretanto, a cidade real cresceu além do plano. Migração, falta de moradia e parcelamentos privados produziram bairros populares e expansão não prevista.
Transferência administrativa e inauguração
O município de Goiânia foi criado em 1935. Secretarias e órgãos começaram a ser transferidos gradualmente. O Decreto nº 1.816, de 23 de março de 1937, oficializou a mudança da capital.
A inauguração simbólica mais conhecida ocorreu em 5 de julho de 1942, durante o Batismo Cultural. Congressos, solenidades, bailes e inaugurações apresentaram a nova cidade ao país. A data não deve ser confundida com a fundação ou com a transferência jurídica; são marcos diferentes.
A antiga capital permaneceu como Cidade de Goiás e continuou central para a memória estadual. A relação entre as duas cidades é de ruptura e continuidade: Goiânia representou novo projeto, enquanto a Cidade de Goiás preservou instituições, famílias, tradições e patrimônio.
Quem construiu Goiânia
Operários, pedreiros, carpinteiros, motoristas, técnicos, servidores, comerciantes e migrantes construíram a capital. Muitos viveram em condições precárias, sem acesso imediato à infraestrutura planejada para áreas centrais.
Campinas teve papel decisivo como base comercial e residencial. O crescimento atraiu pessoas de diferentes regiões de Goiás e de outros estados. A expansão produziu contrastes entre o centro monumental, bairros planejados e ocupações populares.
Reconhecer trabalhadores amplia a narrativa além dos governantes e arquitetos. Fotografias, jornais, folhas de pagamento, memórias familiares e arquivos sindicais podem recuperar experiências que documentos oficiais tratam de forma secundária.
Legado urbano e disputas contemporâneas
O plano original ainda organiza a leitura do Centro e de setores históricos, mas Goiânia tornou-se metrópole. Verticalização, automóveis, expansão periférica e conurbação alteraram escalas. A proteção do Art Déco convive com pressão imobiliária e necessidade de manutenção.
A história da construção é relevante para compreender setores como Bueno, Oeste e Sul, parques urbanos, eixos viários e legislação. Nomes de ruas e bairros preservam agentes da época, mas também podem ocultar trabalhadores e populações removidas.
Documentar a cidade exige combinar legislação, mapas, fotografias, patrimônio, memória oral e dados urbanos. Nenhuma fonte isolada explica a transformação.
Quem construiu Goiânia
A nova capital resultou do trabalho de engenheiros, arquitetos, desenhistas, mestres de obras, pedreiros, carpinteiros, operários, comerciantes e famílias que migraram para o canteiro. Campinas forneceu moradia, comércio e serviços enquanto os edifícios públicos e as primeiras avenidas eram abertos. A história oficial costuma destacar dirigentes e projetistas, mas a materialização da cidade dependeu de milhares de trabalhadores.
As condições eram desiguais. Parte da população vivia em alojamentos precários, enfrentava falta de água, poeira e distância dos serviços. A valorização da terra também gerou disputas, loteamentos e oportunidades de especulação. Planejamento moderno e desigualdade urbana nasceram juntos.
Documentos de obras, fotografias, jornais, plantas e depoimentos ajudam a reconstruir essa dimensão social. Eles mostram que a capital não surgiu pronta: foi ocupada, adaptada e transformada por seus moradores.
Art Déco, plano urbano e identidade visual
O conjunto Art Déco de Goiânia tornou-se uma das marcas da cidade. Volumes geométricos, fachadas simplificadas, ornamentos, serralheria e tipografia aparecem em edifícios públicos e particulares. O estilo comunicava modernidade e ruptura simbólica com a antiga capital.
O plano inicial de Attilio Corrêa Lima organizou eixos cívicos e avenidas radiais. Armando de Godoy introduziu ajustes ligados à cidade-jardim e à expansão. O crescimento posterior ultrapassou limites previstos, incorporou novos bairros e pressionou áreas verdes.
Preservar o conjunto não significa congelar o centro. Requer uso, manutenção, sinalização, educação patrimonial e compatibilização de intervenções. A arquitetura é fonte para entender as ambições políticas e os modos de vida do período.
Decretos e fontes oficiais
Decretos, comissão de escolha do sítio, projeto urbano e transferência da capital.Museu Pedro Ludovico
Acervo e contexto da residência construída entre 1934 e 1937.TBC Memória — urbanização de Goiânia
Entrevista com pesquisadora sobre irmãos Coimbra Bueno, urbanismo e ocupação imobiliária.